Numa perspectiva através da história da educação vemos que o ato de educar está sempre inserido num bojo de reprodução da cultura, dos valores e até da estrutura da sociedade. Na Antiguidade, por exemplo, a educação para as letras era restrita aos futuros líderes, religiosos e políticos, e tinha a função de reproduzir o modo de produção asiático, baseado numa sociedade estamental destituída de mobilidade social. Paulo Freire era enfático ao dizer que “toda a educação é um ato político”, e isso é um fato histórico, toda atividade educativa visa fins subjetivos previamente estabelecidos. Margareth Mead dizia que a melhor forma de conhecer uma sociedade é observando a educação que é dada as crianças. Mas se toda educação é correlata a própria sociedade, então como é possível haver uma história universal? Estamos completamente presos aos ditames da nossa propria cultura? Seria possível uma transformação social através educação e da consciência?
O conceito efetivo de humanidade só é realizavel na medida em que eu tenho uma relação transversal, tanto com a minha história, quanto com aqueles que compatilham conosco a realidade presente através do globo. Dessa forma, uma formação completa é aquela em que, através da minha realidade estabelecida, eu tenho contato crítico com todo o conhecimento sistematizado, produzido historicamente por diversas sociedades e culturas. Nós não nos abstraímos da nossa realidade presente, mas também não nos limitamos a ela, nós a transcendemos, e assim a transformamos.
Para isso, é imperativo o desenvolvimento de uma consciencia crítica, porque sem ela nos tornaremos meros depositários de informação. A nossa sociedade é sim, a sociedade da informação, mas de forma alguma é a sociedade do conhecimento. A evolução da constante revolução tecnológica, com uma vasta gama de mídias, difusiona informações de uma forma sem precedente histórico. Mas, esse avanço tecnológico ainda está longe de ser democrático de fato; assim como todas as benécies históricas, a tecnologia atende a sociedade de cima para baixo. Toda tecnologia, ao chegar ao povo, já é obsoleta. Numa sociedade como a brasileira, onde mais de cinquenta por cento da população não tem acesso a saneamento básico, pensar numa sociedade “Minority Report” é ainda fantasioso. O que a revolução tecnológica da sociedade da informação faz é criar um abismo civilizatório no que antes eram desigualdades sociais. Hoje, as desigualdades sob o prisma do conhecimento vão muito além do analfabetismo; a nossa sociedade, em sua complexidade, é pródiga na criação de novas categorias de analfabetismo: hoje possuímos o analfabeto político, o analfabeto ambiental, o analfabeto econômico, o analfabeto monolinguístico, e é claro, o analfabeto tecnológico. As desparidades se esgarçam de uma tal forma que dentro de uma mesma sociedade, alguns se masturbam mentalmente no matrix do Second Life, enquanto outros dormem sob viadultos, morrem nas filas dos hospitais, e vivem a realidade cotidiana daquilo que para alguns é diversão na realidade virtual do seu Counter Strike.
Para informação se transformar em conhecimento é necessário todo um anteparo, que envolve o desenvolvimento de uma consciência crítica, tanto sobre a informação, quanto, principalmente, sobre a própria realidade em que se está inserido. A educação utilitarista do ”aprender a aprender” é um instrumento de reprodução da própria tragédia. Ao abstrair o indivíduo da sociedade, e do conhecimento socialmente acumulado, além de desenvolver todo um aparato ideológico em que os estruturalmente excluídos são concebidos como displicentes, ou mesmo “vagabundos”, a pedagogia do “aprender a aprender” prepara os individuos para se alienarem no próprio processo do conhecimento. Ao invés de preparar individuos para verem, essa pedagogia os cega, os torna indiferentes a própria condição, e pior, produtores da própria tragédia.